08 Agosto 2010

“Gato Fedorento” e Feliciano Barreiras Duarte abriram “Café das Quintas” 2010 

 

Ricardo Araújo Pereira: “Humoristas e padres estão no mesmo negócio”

 

Ricardo Araújo Pereira e Feliciano Barreiras Duarte foram os primeiros convidados do Café das Quintas de 2010. O humorista dos “Gato Fedorento” esteve igual a si próprio, transmitindo a imagem de um intelectual que faz do humor uma notável ferramenta de comunicação. O público, que esgotou a sala, não perdeu pitada e seguiu com atenção até final as palavras do humorista, que prefere assumir-se como guionista e escritor. Sério ou histriónico, as palavras de Ricardo Araújo Pereira são sempre medidas, um dos trunfos do maior humorista português da actualidade. Feliciano Barreiras Duarte, professor universitário e “aprendiz de escritor”, faz da defesa da imigração uma das suas causas e sublinha que a imigração dá lucro a Portugal.

    O colóquio, uma vez mais promovido pelo Orfeão de Leiria, teve lugar no dia 7 de Janeiro, no arquivo Distrital de Leiria, tendo contado com a apresentação do Professor Carlos André e interpretações musicais a cargo do guitarrista André Almeida Ferreira e do Trio de Guitarras de Leiria

   Ricardo Araújo Pereira cursou Comunicação Social e Cultural na Universidade Católica, apesar de, já na época, preferir estudar literatura. Os pais achavam que deveria ser advogado, pois acreditavam que “ ninguém ganha a vida a escrever.” Comunicação Social e Cultural surgiu assim com uma solução de compromisso, embora o humorista recorde que hoje lembra aos pais, em cada reunião de Natal, que ganha mais a escrever que eles os dois juntos nas suas profissões, o que é “um óptimo assunto para animar um Natal.”

   Contudo, a carreira académica de Ricardo Araújo Pereira não terminou aqui, tendo-se inscrito posteriormente em Estudos Portugueses, obtendo a honrosa média de 19 valores, correspondentes a … duas cadeiras. Mais recentemente, inscreveu-se num mestrado na Faculdade de Letras de Lisboa, mas ainda não teve tempo para assistir a qualquer aula ou entregar um único trabalho.

   A infância do humorista foi passada na Pontinha, concelho da Amadora, na companhia de uma avó sexagenária. Os pais viajavam bastante e, por falta de tempo, deixavam-no com muita frequência aos cuidados da avó. Ao menino Ricardo Araújo Pereira, fechado entre a cave e o rés-do-chão, poucas opções mais restavam senão fazer rir a avó, cuja sisudez o neto justifica com a vida difícil dos anos 20 e a viuvez precoce. A difícil tarefa de fazer rir a avó foi assim o primeiro teste que o humorista teve de enfrentar para ver reconhecido o seu talento.

   A sua proximidade ao PCP, partido de que foi militante durante seis anos, começou com uma relação de vizinhança, uma vez que a sede do partido na Pontinha estava situada a oito portas da casa da sua avó, por sinal uma beirã anticomunista. Ricardo conta que a falta de energia eléctrica à hora da telenovela era sempre atribuída aos comunistas…

   O moderador lembrou que Ricardo Araújo Pereira se ri pouco, ao que o humorista respondeu que, desta forma, o efeito da piada torna-se maior, admitindo também tratar-se de um mecanismo de autodefesa, pois, se não tiver piada, o ar sério não o compromete.
 
   

Ricardo Araújo Pereira nasceu poucos dias depois do 25 de Abril e não se arrepende de ser filho da democracia: “É simpático não ter vivido um minuto da ditadura”, justifica, recordando que o ex-dirigente do PCP Carlos Brito durante anos não respondia na rua quando chamavam pelo seu nome, com medo de ser denunciado. Mais a brincar, o humorista diz que “o 25 de Abril foi uma cunha, pois foi ele que me arranjou este emprego”. Sobre o fascismo, o “Gato Fedorento” citou o Prof. Manuel Villaverde Cabral que defende que todos os fascismos são nacionalistas e que “o nosso é santacombadense.”

   A vida profissional de Ricardo Araújo Pereira começou na TVI, através de um estágio proporcionado por um curso de escrita criativa, orientado por Rui Zink. O estágio não remunerado, de três meses, foi o primeiro prémio do curso, levando o humorista a questionar-se qual teria sido o segundo prémio… A experiência não foi das melhores, admitindo o escritor não estar fadado para fazer reportagens. Motivo: esquecia-se regularmente de anotar o nome dos entrevistados, o que o levou, numa das vezes, e já sem saber mais o que responder aos editores, a inventar o nome de cinco alentejanos entrevistados na rua. Rumou depois ao Jornal de Letras, publicação onde disse sentir-se muito mais confortável, sobretudo, porque entrevistava artistas e escritores.

   Relativamente à religião, o humorista – um ateu que estudou sempre em escolas católicas - gosta de distinguir os padres, de que guarda boas memórias, dos “padrecas”. De qualquer modo, considera que padres e humoristas estão no mesmo negócio: “Eles ensinam a ter medo da morte, nós ensinamos a fazer pouco dela.”

   Ricardo Araújo Pereira lembrou que o riso tem má reputação social e lembra expressões pejorativas como “muito riso, pouco siso” e “pateta alegre.” Riso e arrogância confundem-se por vezes, o que considera natural porque quem ri geralmente está numa posição de superioridade, observando a vítima numa posição difícil. O humorista citou autores que entendem que o que faz rir é a incoerência, dando como exemplo um janota que se estatela numa poça de lama. Por outro lado, “a sátira é vizinha da ofensa” e admite que o objectivo dos “Gato Fedorento” é também “chatear as pessoas.”

   Por vezes, o diálogo estabeleceu-se também com Feliciano Barreiras, que, a páginas tantas, interrompeu o humorista quando este se referia aos “estudiosos do satanismo”.
- Ou do Santanismo?, interrogou.
- Não, não há ninguém a estudar isso!, atalhou o humorista, perante a gargalhada geral da plateia que encheu a sala do Arquivo Distrital de Leiria.

   Carlos André questionou o humorista sobre o chamado “lixo televisivo”, mas Ricardo Araújo Pereira mostrou-se tolerante com a actual programação televisiva, uma vez que “os vários públicos passam a ter os seus gostos satisfeitos em termos de humor.”

   O guionista considera que um bom título para um programa de humor é aquele que nunca pode ser usado num Telejornal e, por isso, o último teve o nome “Gato Fedorento esmiúça os sufrágios.” O nome foi de imediato “vetado” pelos técnicos da sua equipa, que argumentavam que as pessoas não entenderiam o significado de esmiuçar, mas Ricardo Araújo Pereira manteve o nome acreditando que muitas pessoas saberiam o significado da palavra ou iriam procurar saber. E assim aconteceu, sendo “a palavra “esmiuçar” uma das mais procuradas nos motores de pesquisa da Internet durante a exibição do programa.

Curiosamente, o humorista afirma que não gosta de conhecer figuras públicas, uma vez que depois se sente inibido de as satirizar. E deu como exemplo o deputado Telmo Correia que conheceu num jogo do Benfica e cujos filhos frequentam o mesmo colégio “queque” do humorista. Resultado: nunca mais o deputado do CDS entrou nas rábulas dos “Gato Fedorento.”

Sobre o programa “Gato Fedorento esmiúça os sufrágios”, Ricardo Araújo Pereira confessou que o convidado mais difícil foi Marcelo Rebelo de Sousa, admitindo que não conseguiu controlar a energia do comentador da RTP. Quanto a José Sócrates e Manuela Ferreira Leite revelou que ambos hesitaram em aceitar o convite, preferindo cada um dos dirigentes partidários ficar à espera da resposta do rival directo.

   Só na véspera da entrevista, o Gabinete do Primeiro-Ministro confirmou a sua presença, o que, mesmo assim, “não era tranquilizador porque … era uma promessa do primeiro-ministro!”, ironizou. O convidado mais calmo do programa foi Mário Soares, que compareceu “sem o mínimo tremor”. Segundo o humorista, o ex-Presidente da República justificou a fleuma com a habitual bonomia: “Se já debati com o Cunhal, não ia ficar nervoso com … o “Gato Fedorento.”

MAGICADO POR Miguelita às 16:19

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