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Gato Fedorento Fãs

Gato Fedorento: 4 pessoas, 4 homens, 4 comediantes, mas acima de tudo são 4 amigos... 4 amigos que adoram o que fazem, e nós adoramos o seu trabalho!

Gato Fedorento Fãs

Gato Fedorento: 4 pessoas, 4 homens, 4 comediantes, mas acima de tudo são 4 amigos... 4 amigos que adoram o que fazem, e nós adoramos o seu trabalho!

UMA COISA QUE DEU QUE FALAR EM 2005

27
Mar09

quem tiver paciencia que leia, mas vale a pena ;)

Ponto de ordem

 
Hibernei durante quatro dias por força das circunstâncias de uma estúpida gripe. Voltei e registo que: o Ricardo Araújo Pereira é do Bloco, o Francisco Louçã tem uma filha, o Engº Sócrates continua a perder votos cada vez que abre a boca, Bagão Félix chamou neo-fascista a Francisco Louçã, o Rodrigo continua a dar trabalho ao bloguistas de esquerda e o meu grande amigo Henrique voltou.
Mesmo a tempo, Burnay. 

 

Tá mal

 
Concordo com tudo o que escreve o Luciano ali em baixo, desde logo quando refere o indiscutível génio do Ricardo Araújo Pereira e a infeliz formulação do meu aspirativo poste.
Para que não restem dúvidas - nomeadamente aos que me enviaram emails a enumerar as diversas qualidades pessoais, intelectuais e até o fervoroso benfiquismo do artista - não tenho nada contra a pessoa em causa.
A verdade é que o Bloco de Esquerda, quando o convidou para um jantar, não o convidou pela sua elevada estatura ou pela sua simpática presença, mas porque ele é o Gato Fedorento - o que aliás é fácil de verificar de novo na capa do "24Horas" de hoje. E é isso que está mal, como diria o próprio.
Ao aceitar dar a cara pelo Bloco de Esquerda, está também a dar de barato o seu bem mais precioso: a imagem de um símbolo do bom humor nacional que já não é só dele e deveria poder ser de todos os admiradores - incluindo os que são do CDS. Como eu. 

 

 

e o ricardo responde assim:

PORTUGAL VAI TER UM RUMO E EU TAMBÉM: Gosto imenso que me digam o que devo e não devo fazer. Constato agradecido, embora não sem surpresa, que há cada vez mais gente interessada em fornecer-me orientações de vida. E quando o autor do ditame é uma pessoa com a estatura de um Paulo Pinto Mascarenhas, percebo que a minha existência pode, finalmente, começar a fazer algum sentido. Escreve PPM n’ O Acidental:

O Bloco Fedorento
Depois de ver o famoso comediante Ricardo Araújo Pereira num encontro do Bloco de Esquerda, pergunto-me se ele é o Gato de Esquerda ou o Bloco Fedorento.
[PPM]
PS. Eu sei que a piada não tem graça nenhuma, não se preocupem, que eu não tenho aspirações a humorista. Só que o humorista também não devia ter aspirações políticas. (…)

Por aqui se vê o desgoverno moral e ético em que andava a minha vida. Em primeiro lugar, devo confessar a minha ignorância: desconhecia que, estando presente num jantar de apoio ao Bloco de Esquerda, eu manifestava uma “aspiração política”. Estava sinceramente convencido de que a minha presença num jantar de apoio exprimia – calculem – a intenção de apoiar. Mas não quero fazer a rábula do ingénuo. Quando aceitei o convite do Bloco para jantar eu tinha, evidentemente, uma aspiração, que era esta: uma digestão sem sobressaltos. Mais concretamente, aspirava ao seguinte: mastigar os víveres, degluti-los, e esperar que estômago e vísceras adjacentes levassem a cabo um trabalho sério e competente. Contudo, em se tratando de um jantar político, as próprias vitualhas ficaram contaminadas de política – e aquela que, numa refeição normal, seria apenas uma aspiração, digamos, digestiva, transformou-se numa aspiração eminentemente política.
E esta constatação leva-me à segunda confissão de ignorância: não fazia ideia de que “o humorista não devia ter aspirações políticas”. Desgraçadamente, não li o Código Deontológico do Humorista (falta da qual aproveito para me penitenciar) e por isso acreditava que, quer para os humoristas, quer para os outros profissionais, valiam as mesmas regras da… Como é que se chama aquilo? Democracia, é isso. Assim sendo, quero agradecer duas vezes a PPM: uma, por me fazer ver que, 30 anos depois do 25 de Abril, ainda há quem deva e quem não deva ter aspirações políticas – e que eu pertenço ao grupo dos que não devem (a não ser, desconfio, que passe a apoiar o partido de PPM); outra, por, ao fim de quase dois anos de blog, me ter dado pretexto para escrever as palavras “víveres” e “vitualhas”, pelas quais nutro particular afeição. Obrigado e obrigado.
RAP 

A vida dele dava um filme soviético

 
Bem, como isto não é só o Daniel que tem direito a ser a voz do dono, também eu venho defender aqui o meu patrão. Opinou o patrão (depois de ver o Ricardo Araújo Pereira num jantar do Bloco, pá) que, assim como ele próprio não deveria ter aspirações a humorista, também o RAP não deveria ter aspirações a político. O RAP saltou-lhe em cima. Talvez a formulação do meu patrão não fosse muito feliz, mas a ideia estava certa. Estou convicto disto depois de ontem ter lido uma entrevista do RAP a esse jornal de enorme estatura chamado 24 Horas (não tem site).
Entendamo-nos: eu acho que o RAP se arrisca a ficar como o melhor cómico português do último meio século (para trás não falo porque não conheço), o que inclui Vasco Santana, António Silva, Solnado ou Herman. A primeira vez que vi o RAP foi nuns excelentes sketches, que fazia juntamente com o Zé Diogo Quintela, num não-tão-excelente programa chamado O Perfeito Anormal. Desde aí que acompanho a sua carreira.
Agora, quando chegamos à política, o RAP deveria mesmo ser proibido de emitir qualquer opinião. Como é que um humorista da estatura dele tem opiniões políticas daquela estatura? Lá diz ele nessa entrevista que se inscreveu no PCP aos 24 anos, em 1998. Em 1998! Aos 24 anos!! Acho que não se pode alegar nem imaturidade adolescente nem desconhecimento do que é o comunismo. Seis anos depois saiu do PCP porque “aquilo que se fez ao João Amaral, e ao Carlos Brito e ao Edgar Correia foi uma coisa que me deixou bastante indignado”. O RAP não deve saber, mas aquilo que fizeram ao Edgar Correia e ao Carlos Brito é uma brincadeira de crianças comparado com aquilo que o PCP e os outros partidos comunistas por esse mundo fora fizeram a milhões e milhões de pessoas. Saiu também porque “o facto de o líder da bancada parlamentar ter dito que não tinha a certeza se a Coreia do Norte era uma democracia ou não” o deixou “desgostoso”. Desgostoso, RAP? Já ele ter dúvidas é muito bom. Até há pouco tempo ele teria a certeza de que era uma democracia. A Coreia, Cuba, a China, o Vietname, a URSS, Angola, sei lá… E depois disto, não é que ao RAP lhe dá para apoiar o Bloco, pá. Cruzes Credo! Como se dizia antigamente, é mesmo de Mao a piau.
Só que o RAP é tão bom humorista que merece benevolência. E eu tenho uma hipótese para as suas ideias políticas: na realidade, é tudo uma piada. Visto assim, um tipo realmente ri:
- Sabias que o RAP entrou no PCP em 1998 e agora apoia o Bloco, pá.
- Nãããooo… Não acredito…. O Bloco, pá?
Afinal, com RAP a piada é garantida. Como se diz na política portuguesa, dentro e fora das quatro linhas.
[Luciano Amaral]

 

Fico satisfeito...

 
...por ter contribuído de modo tão decisivo para o regresso em força de Ricardo Araújo Pereira aos blogues. Calculem que, desde 18 de Janeiro, 100 por cento dos postes escritos no Gato Fedorento são dedicados aqui ao Acidental.

[PPM]

PS (ou, se preferirem, BE). Em resposta ao leitor Sérgio Bastos, um admirador de esquerda do Gato Fedorento: sim, é verdade eu também admiro o Gato Fedorento. Não, é mentira, eu não embirro "só" com o RAP, apenas critiquei o facto de envolver a imagem do Gato Fedorento com um partido. Não, é mentira, a questão não é se o partido é de direita ou se é de extrema-esquerda. Sim, eu ouvi dizer que o Zé Diogo Quintela é de direita. Mas uma coisa é as pessoas terem as suas escolhas políticas e outra bem diferente é correr o risco de conotar um projecto de humor que se pressupõe independente com um partido.

PS(ou, se preferirem, CDS). Eu fui jornalista. Deixei de o ser em Janeiro deste ano, quando comecei a fazer política e me tornei militante do CDS (a minha declaração de interesses está aliás bem explícita no início deste blogue). Jamais seria militante ou daria a cara por um partido enquanto jornalista porque entendo que o jornalismo tem uma militância própria que exige independência e não é compatível com possíveis hierarquias políticas ou partidárias. Nunca fui jornalista de Política Nacional - apesar de ter feito esporadicamente algumas notícias e reportagens nessa área ao longo de 13 anos. Comecei como estagiário do Internacional e terminei como editor da mesma área e de Sociedade.
And thats all, folks!!!

 

 

 

 

 

 

 

RICARDO RESPONDE:

 

ESCLARECIMENTO DEMORADINHO: Sou mencionado em 5 dos últimos 18 posts d’ O Acidental. E eu a pensar que não me podia acontecer pior que a capa do 24 Horas… Tivesse eu sabido que um simples jantar iria causar tanta comoção e há muito que teria enviado à equipa d’ O Acidental um plano detalhado de todas as minhas refeições. Vejamos o que dizem desta vez.
Paulo Pinto Mascarenhas insiste em censurar o meu comportamento:

Ao aceitar dar a cara pelo Bloco de Esquerda, está também a dar de barato o seu bem mais precioso: a imagem de um símbolo do bom humor nacional que já não é só dele e deveria poder ser de todos os admiradores – incluindo os que são do CDS.

Aparentemente, e por razões misteriosas, a minha imagem (seja isso o que for) já não é só minha. É curioso que PPM, sempre tão cioso da propriedade privada, queira agora nacionalizar-me a imagem. E porquê? Porque os meus admiradores que apoiam outras forças políticas não gostam de me ver apoiar esta – e, no concurso de popularidade em que subitamente me vejo metido, isso joga contra mim. Sobre os meus putativos admiradores, devo dizer duas coisas. Primeira: que tenham juízo e aproveitem para ir admirar alguém que seja verdadeiramente digno de admiração. Segunda: se não toleram que eu pense de maneira diferente deles, será que se podem chamar “admiradores”?
Pergunto-me, aliás, se isto funciona só com a política. Suponhamos que, em lugar de ter manifestado apoio ao Bloco de Esquerda, eu tinha revelado publicamente a minha predilecção por bacalhau à lagareiro. Ser-me-ia isto permitido? Ou deveria manter sigilo sobre o assunto, para não melindrar os admiradores que preferem o fiel amigo cozinhado de outras maneiras – e que por isso mesmo iriam sentir-se espoliados da minha imagem, coitados?
Pergunto-me, em segundo lugar, se isto funciona só comigo. Por exemplo, seria justo que eu dissesse o seguinte: “Admirava imenso o Paulo Pinto Mascarenhas. Mas, ao aceitar escrever os discursos do Paulo Portas, deu de barato o seu bem mais precioso: a imagem de um símbolo do bom jornalismo nacional que já não era só dele e deveria poder ser de todos os admiradores – incluindo os que são de esquerda. Ele não devia ter aspirações políticas”? Não tenho nada contra jornalistas que manifestam preferências políticas, atenção. Mas acho extraordinário que seja um jornalista a dizer-me que eu, como humorista, tenho deveres de imparcialidade e recato.
Com o Luciano Amaral, o caso é ligeiramente diferente. O Luciano concede-me o direito a ter opiniões políticas, desde que não sejam estas. Baseia esta proibição numa entrevista que dei ao 24 Horas. “Entrevista”, diz ele – e admito que é o que parece. Na verdade, foi uma conversa de dez minutos ao telefone com um jornalista que me contactou dizendo que pretendia esclarecer a minha presença no jantar do Bloco (os jornalistas do 24 Horas e a malta d’ O Acidental têm obsessões muito parecidas). Deu naquilo. Paciência. Quem se regalou foi o Luciano:

O RAP não deve saber, mas aquilo que fizeram ao Edgar Correia e ao Carlos Brito é uma brincadeira de crianças comparado com aquilo que o PCP e os outros partidos comunistas por esse mundo fora fizeram a milhões e milhões de pessoas.

Um clássico. Como é possível continuar a ser comunista depois de todos os horrores praticados por comunistas em todo o mundo? Para mim, que sou um marxista não-leninista, é um argumento particularmente absurdo. Não vejo que haja qualquer nexo de coerência entre considerar que as críticas de Marx à sociedade capitalista são acertadas e aprovar o que fez Estaline. Do mesmo modo, não é verdade que é possível continuar a ser cristão depois de todos os horrores praticados por cristãos em todo o mundo? Ou é forçoso que quem segue a doutrina de Cristo se reveja em Torquemada?
Finalmente, a inquietação “Dúvida rapidinha”, de Rodrigo Moita de Deus. Diz ele: “
Terá o Ricardo Araújo Pereira gerado vida para agora ir aos jantares do Bloco?” A questão é, sobretudo, elegante: terei eu tido uma filha para agora poder frequentar jantares políticos? Ainda impressionado com o bom gosto da insinuação, percorro mais alguns posts d’ O Acidental e dou com RMD a escrever:

Egas Moniz ofereceu o pescoço, Martim Moniz o torço [sic] e Francisco de Almeida as barbas.

Confesso que contorço o torso a rir do torço de Martim Moniz. É sabido que a desgraça alheia tem graça sobre tudo o resto. E a desgraça dupla do pobre Martim Moniz, cujo torso foi primeiro entalado pelas portas dos mouros e agora pelo dicionário do Rodrigo, tem graça a dobrar. Sei que estas mesquinharias acerca da ortografia do escritor Rodrigo Moita de Deus são provocações baratas. Mas que outra coisa são os considerandos sobre as minhas motivações para gerar vida
? RAP
 

 

Uma coisa eu sei: o Meireles não é comuna

 
Ricardo, dirijo-me pessoalmente e trato-te por tu porque até já fomos apresentados e foi assim que nos tratámos então (embora talvez não te lembres, o que terá provavelmente que ver com a nossa diferente estatura). É o seguinte: emite as opiniões que quiseres, embora aquela coisa do comunismo e do Bloco e não-sei-quê seja um bocadinho tosca. Hás-de desculpar-me, é aquilo que tu pensas, bem sei, mas é tosco. Dizes que uso argumentos da acusação clássica anti-comunista. É verdade, mas olha que aquilo aconteceu mesmo. Dizer que Hitler matou seis milhões de judeus também é um clássico do anti-nazismo, mas não deixa de ser verdade. E ninguém imagina um nazi a explicar-nos candidamente: “lá porque o gajo matou seis milhões não quer dizer que não tivesse umas ideias fixes”. Deixa-me que te diga, porém, que a tua resposta também é uma defesa bastante convencional e não toca naquilo que eu quis dizer. Não gostas do capitalismo? À vontade. Quem sou eu para te obrigar a gostar? Mas eu também não gosto do comunismo e nunca me inscrevi em qualquer partido anti-comunista. Há um certo padrão no comportamento dos partidos e dos regimes comunistas que não deveria ser novidade nos dias que correm para qualquer pessoa alfabetizada. Os partidos e os regimes comunistas são autoritários. A história do comunismo não passa de uma galeria de horrores, “a mais bem sucedida forma de fascismo”, nas justas palavras de Susan Sontag. Francamente, não me venhas com a história da Inquisição. Quem olha para a história do comunismo e não tira certas ilações tem uma grave incapacidade para aprender. De resto, o meu ponto é que as tuas justificações para abandonares o PCP me soaram fraquinhas. Na sua história, o PCP fez muito pior do que aquilo que aconteceu ao Carlos Brito ou ao Edgar Correia. Mas muito pior, mesmo, em episódios onde nem sequer faltou a morte violenta. E como te podem surpreender as dúvidas de Bernardino sobre a Coreia, quando a história do comunismo é a sua sistemática ligação a regimes autoritários, “fascistas de esquerda”, nas palavras do ministro Bagão (que Susan Sontag não desdenharia assinar)? Reconheces aos cristãos o direito de serem cristãos apesar da Inquisição. Tu entras e permaneces no PCP apesar de (imagino) saberes da história horrível do comunismo, e agora sais por causa do Carlos Brito e das larachas do Bernardino? Ricardo… Duh!
Não gostar do capitalismo não te obriga ser comunista. A partir do instante em que te assumes como comunista (não te esqueças, o Bloco continua a ser um partido comunista) sou obrigado a perguntar: não gostas do capitalismo. E do comunismo, gostas? Da miséria e opressão que são a sua marca? Olha para o PS, por exemplo: eles também não gostam muito do capitalismo, mas lá aceitam que é capaz de gerar riqueza e depois tentam corrigir aquilo a que chamam injustiças sociais com umas medidas aqui e acolá. Mas, sabes?, nisto tudo há uma coisa que me chateia. Se desses uma entrevista a explicar que tinhas sido do PSD e depois te tinhas desiludido e te tinhas passado para o PP, não eras aí o herói da pequenada. Não sei exactamente porquê, mas isso não seria visto como uma coisa “gira”. Já o Bloco, não sei, tem sempre muita graça.
Mas, enfim, já chega: diz o que quiseres e apoia quem quiseres, desde que continues a fazer o melhor humor que esta terrinha conheceu em décadas. Se deixasses de o fazer e continuasses só com as tuas opiniões políticas, aí é que não tinhas salvação possível
.
[Luciano Amaral]
 

 

E ZE DIOGO COMENTA

 

 

AINDA OS POSTS D' O ACIDENTAL SOBRE O RICARDO: Podia dizer “eu também não gosto que o Ricardo seja de esquerda, mas apesar disso, sou amigo dele, que diabo! Pois se ele até é bom rapaz!”. Mas isso é ser paternalista. Aliás, se escrevo isto, não é em defesa do Ricardo. Ele não precisa de quem o defenda. Ele sabe tudo sobre defender-se. Até porque fui eu que lhe ensinei. Como disse, ele não precisa de paternalismos.
Escrevo como colega. Ora bem, como colega, acho estranho que se diga que um humorista não deve ter aspirações políticas. É que eu gosto de manter as minhas possibilidades em aberto e já se sabe que, em Portugal, às vezes é necessário ter dois empregos para ganhar algo que se veja. De maneira que, a aceitar a teoria d'O Acidental, vejo as minhas escolhas limitadas.
Aliás, não é só em Portugal. Parece que o Ronald Reagan (que, diz-se, era actor) resistiu bastante até revelar as suas posições políticas, porque ao fazê-lo, deu de barato o seu bem mais precioso: a imagem de um símbolo nacional, que já não era só dele e deveria poder ser de todos os admiradores – incluindo os Democratas. Enfim. Mas nem todos gostam do Ronald Reagan e não sei se o PPM ou alguém d'O Acidental gostará. (Também não sei se a impossibilidade de tornar públicas as simpatias políticas é exclusiva dos humoristas, não valendo por isso os exemplos de actores, mesmo que tenham participado em comédias. Nesse caso, esqueçam o Reagan).
Isso de achar que as posições políticas são só para os políticos – e, vá lá, para os jornalistas – é uma atitude que – e escritores, ok, também pode ser para escritores – cheira a uma coisa antiga – ah! E advogados. Advogados também as podem ter – que é o corporativismo.
Mas dou o benefício da dúvida à rapaziada do Acidental. Sei que não fizeram por mal. Dizer que um humorista, por o ser, não deve ter posição política é tão bizarro como, sei lá, dizer que uma pessoa, por não ser pai, não deve ter opinião sobre o aborto. E eu acho que todos sabemos o que é que O Acidental pensa sobre isso
. ZDQ